• Lis Haddad

O poder do invisível

Atualizado: 4 de ago. de 2020

Na Índia, a linha como metáfora sempre foi usada nos textos filosóficos e sagrados para falar sobre Rta, o termo que em sânscrito significa “verdade” ou “ordem” cósmica. A poética do tecido traz em si a possibilidade transformadora e a força latente do que é mutável, um padrão inerente à própria vida.

Toda arte tradicional indiana possui potencial terapêutico, reflexivo e de cura. O realizar com as mãos, em sua essência, é mais do que uma forma de fazer coisas; implica diretamente na construção de si e do entorno. O tecer, a roda de fiar, linha e agulha são convites para processos de autoconsciência e resiliência.

No início de 2019, conheci o trabalho de Priya Ravish Mehra na Bienal Internacional de Arte Kochi-Muziris (Kochin, India). A estética dos seus experimentos em papel, linha e tecido me encantou. Os pontos de cerzido ao invés de esconder, exaltavam as marcas e desgastes na matéria. Foi também o meu primeiro contato com a palavra Rafoogari, uma técnica extremamente minuciosa de cerzido invisível.

Durante 15 anos a artista trabalhou com a comunidade Rafoogar de Najibadad, estado de Uttar Pradesh. A cidade, fundada no século 18, era o eixo comercial dos sofisticados tecidos produzidos na Kashemira, extremo norte do país.

Os chamados ‘Kani Shawls’ eram feitos em técnicas de tapeçaria usando um raro tipo de lã, com uma complexa combinação de cores e desenhos. Por ser um processo lento e artesanal, a produção por meios tradicionais se tornou inviável, diminuindo gradualmente a partir do final do século 19.

Não se sabe se os profissionais especializados na manutenção dos tecidos surgiram durante ou após esse período, quando as peças precisaram ser restauradas. O certo é que num contexto de mudança econômica e social, eles se tornaram fundamentais para mantê-las vivas e em circulação. Não é por acaso que os Rafoogars também são conhecidos como ‘healers’ – curadores.

Ainda hoje famílias indianas repetem o ritual de todo ano, após o período das monções, tirar seus xales dos armários, examiná-los cuidadosamente e aguardar o Rafoogar para os reparos necessários. Alguns desses tecidos tem mais de 300 anos e são cuidados por uma mesma linhagem de artesãos. 

A excelência de um profissional é medida pela sua capacidade de ocultar a ruptura no tecido, a invisibilidade dos pontos que camuflam o dano. A grande ironia é que ao buscar a perfeição no invisível, eles próprios tornaram-se ocultos.

Priya afirma em um de seus textos que ao iniciar sua pesquisa, não encontrou sequer uma menção aos Rafoogars nos registros da história das narrativas têxteis. Eles passaram a refletir a essência e natureza de sua técnica.

Como em outros ofícios, o saber é passado de geração para geração, mas a falta de reconhecimento e baixa remuneração tem mudado o tecido social da comunidade Rafoogar. Os jovens já não se interessam em manter a tradição.

Em 2018 Priya faleceu. A artista viveu por 12 anos com um câncer e durante sua pesquisa, o ato de cerzir tornou-se uma metáfora ressonante à própria necessidade de cura: “invocar ‘reparo’ como uma forma vital de autoconsciência; e afirmar simbolicamente o lugar, o significado e o ato de consertar o tecido de qualquer vida, bem como a vida de qualquer tecido”. E continua: “Pela minha experiência, qualquer aparente interrupção no ritmo do tecido pessoal é simplesmente outra afirmação do continuum universal e sem costuras, do Rta. Não somos nem mais nem menos que novelos transitórios e mutáveis na trama cósmica, infinita, imaculada, imperecível”.

A história do cerzido é tão antiga quanto o próprio tecido e talvez, à primeira vista, pareça um assunto ordinário demais para ser elaborado. Mas um fio possui uma resiliência inestimável. É através dele que a vida se prolonga. Texto publicado na Urdume#5 (Março 2020)

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